Wishlist
Precisa de estar autenticado para usar a Wishlist.

Os riscos associados ao sedentarismo das nossas crianças

Por Francisco Lontro, psicomotricista, diretor pedagógico da pimpumplay

Os dados são claros e dão que pensar. Ao todo, numa semana, de segunda a sexta-feira, uma criança entre os 6 e os 10 anos de idade terá perdido, em média, em relação a uma criança na mesma situação há 20 anos atrás, entre 22,5 a 33,5 horas semanais de “tempo livre”. Façamos um exercício de aritmética simples, considerando a “agenda” dum miúdo que frequente o primeiro ciclo: a carga letiva aumentou entre 12 e 15 horas semanais (considerando as Atividades Extra Curriculares); se essa criança tiver uma atividade organizada fora da escola (desporto, dança, etc.) despenderá cerca de 4 horas semanais por cada modalidade; no tempo de casa, os últimos estudos apresentados indicam que em média esta criança passará 2,5 horas por dia em frente a um ecrã, ou seja, 12,5 horas na semana letiva.

Sob o pretexto de poder estimular as crianças com atividades mais “seguras”, mais “divertidas”, e pensadas para promover o desenvolvimento de competências específicas, Pais e Educadores estão alterar a estrutura natural de oportunidades de desenvolvimento dos miúdos.

Consequências? Já reparou que os miúdos estão cada vez mais dependentes dos pais, até mais tarde, para fazer coisas como vestir ou atar os sapatos? Ou que lhes parece ser mais difícil divertirem-se se não tiverem o tablet ou a consola por perto? Ou que estão cada vez menos persistentes no ultrapassar de obstáculos ou cada vez menos capazes de tomar iniciativa? Ou até que se cansam mais depressa (o “cansar” físico e o cansar no sentido de ficarem fartos duma atividade mais rapidamente, sem ter tempo de a desfrutar na sua plenitude)? Talvez também tenha reparado que é mais difícil para algumas crianças manterem-se concentradas durante períodos razoáveis de atividade? E por fim, pergunte-se a si próprio ou imagine qual será a resposta dos seus amigos adultos à questão: Qual é a primeira coisa que me vem à cabeça quando penso em “brincar”? (aqui na pimpumplay fizemos um questionário a cerca de 200 adultos e a resposta remeteu, em 87% dos casos, para consolas, brinquedos e jogos de compra em primeiro lugar.

Porquê? As mudanças sociais estão a alterar tempos, disponibilidades e prioridades… o brincar - ato cultural por excelência - está a impregnar-se da velocidade, da necessidade de “surpresa” constante, do materialismo e exacerbar do intelecto em detrimento duma noção mais holística de Ser. Os resultados espelham-se na forma como os miúdos crescem. Uma criança que tem pouco tempo para brincar livremente tem menos oportunidades: para imaginar e (re)criar objetos e situações; para encontrar desafios para os quais tenha uma motivação intrínseca de superação (porque quer divertir-se e atingir o seu objetivo); para se superar física e mentalmente (para correr ou saltar o número de metros exatos que são necessários para a brincadeira que imaginou, ou para procurar soluções diferentes para um problema que persiste e que é necessário resolver para que a brincadeira continue); para descobrir os Outros, os potenciais companheiros de brincadeira, que têm ideias e interesses diferentes, maneiras diferentes de reagir e resolver os problemas, tempos diferentes… que é necessário perceber e aprender a gerir para que a brincadeira perdure.

Não queremos com isto dizer que as aulas de música ou expressão teatral, o futebol ou o judo, o ballet, as navegações na internet e os videojogos não sejam importantes. Serão, certamente. No entanto parece-nos que a sociedade como um todo, as famílias em particular, se debatem hoje com um desafio deveras exigente: como podemos propiciar um equilíbrio entre o que nós, adultos, consideramos, por um lado, serem estímulos importantes para os nossos miúdos e, por outro lado, o espaço que tempo de que necessitam para experimentar, descobrir, criar por eles próprios na relação com o seu Corpo, com o seu Espaço e com os outros Seres que os rodeiam?

Em jeito de síntese, a ciência tem demonstrado que o brincar livre é ponto de partida essencial para o desenvolvimento psicomotor (no sentido da compreensão e superação física e mental dum desafio), para o desenvolvimento da criatividade, e de competências cognitivas essenciais para as aprendizagens “da escola” e de competências sociais (persistência, concentração, controlo da frustração, etc.). Disto temos a certeza; há evidências científicas. Em frente a um monitor (por muitos estímulos que tenha) ou em atividades exclusivamente definidas por adultos, as oportunidades de crescimento harmonioso/ integral são bastante diferentes e, acreditamos, insatisfatórias em relação às reais necessidades das crianças. Daí a importância de dar oportunidade aos nossos miúdos, especialmente na faixa etária dos 0 aos 10/ 12 anos, para brincarem e explorarem livremente o seu Corpo, os objetos (que podem ser brinquedos, mas na maior das vezes não têm de o ser) e a relação com os potenciais companheiros de brincadeira, com os seus próprios tempos.

Partilhe este artigo:

Últimas Notícias via Facebook